O bibliotecario anarquista   
     

Quarta-feira, Maio 07, 2008

            
            

    Comunidade de leitores – adultos e teens     

             
 
     

Um bonito e perfumado livro de banda desenhada, publicado pela Assírio e Alvim no âmbito da Declaração do Milénio promovida pela Assembleia Geral das Nações Unidas, contendo oito elegantes curtas-metragens dedicadas à eliminação da pobreza extrema e da fome, à educação universal, à igualdade dos géneros e direitos da mulher, à mortalidade infantil, à saúde materna, ao combate à SIDA, malária e outras doenças, à sustentabilidade global e à cultura de uma parceria global para o desenvolvimento. Temas seguramente imaginários, utópicos e delirantes… mas eficazes para animar uma comunidade de leitores tímida e introvertida. Gostei também de matar saudades dos belos desenhos do João Fazenda, Susa Monteiro, Pedro Burgos, Miguel Rocha, Rui Lacas e Alex Gozblau.

COTRIM, João Paulo – Vencer os medos: objectivos do milénio. Lisboa: Assírio e Alvim; IPAD, 2008. ISBN: 978-972-37-1314-5
   
   
           
                  

Sexta-feira, Maio 02, 2008

            
            

    Empréstimo inter-bibliotecas inovador     

             
 
     
Ilustração de Luci Gutiérrez
A Biblioteca Municipal de Vilarinho das Terças introduziu uma NOVA MODALIDADE DE EMPRÉSTIMO INTER-BIBLIOTECAS ao DISPONIBILIZAR, PARA EFEITOS DE EMRPÉSTIMO, UMA PEQUENA LISTAGEM DE… UTILIZADORES ESPECIAIS. A medida já entrou em vigor, tendo na sexta-feira passada sido enviados dois utilizadores, designados tecnicamente por “GRANDES MELGAS”, para a Rede de Bibliotecas da Província de Chang Yunnan.
   
   
           
                  

Sábado, Abril 19, 2008

            
            

    Sala de lazer – adultos     

             
 
     
Pensei inicialmente em sugeri-lo para um clube de leitura teen mas, após a leitura, arrepiei caminho. É melhor deixá-lo sossegado junto à restante banda desenhada, na sala de lazer dos adultos. Em traços muito gerais trata-se de uma interessante história ao género policial em que famoso Cavaleiro das Trevas veste o papel de detective na investigação da morte de uma rapariga e no seu decurso vai revivendo repetidamente o grande trauma de infância – a morte dos seus pais.

P.s.: Gostei de Gotham City desenhada pelo Eduardo Risso, de qualquer forma ainda me falta encontrar um desenhador que me leve até à Gotham City Public Library.

AZZARELLO ; RISSO – Batman: cidade destroçada. Senhora da Hora: Devir, 2005. ISBN: 989-559-115
   
   
           
                  

Sexta-feira, Abril 18, 2008

            
            

    A Casa da BD     

             
 
     
Colegas bibliotecários! Bibliotecas Públicas Cool! Colegas desesperados com o desinteresse pela leitura entre os adolescentes da vossa comunidade. Indigentes em geral!... Os vossos problemas com a AQUISIÇÃO DE MANGÁ EM PORTUGUÊS terminaram. A partir de agora existe uma lojinha muito especial, no Mercado de Santa Clara (junto ao Panteão Nacional) em plena Feira da Ladra que vende edições brasileiras de banda desenhada e de mangá. Mandem um mail ao Wagner Dias e peçam para fazer uma listagem cheia de “Narutos, Bleachs e Full Metal Alchimists”. O sucesso com a leitura vai ser de tal maneira demolidor que até o Presidente da Câmara vai ficar de boca aberta... e as vossas promoções serão, obviamente, imediatas.

Mais informo que a loja abre apenas às terças e aos sábados das 9h – 17h e que o contacto é o 964 309 617.

Se tiverem dúvidas do género “Hum?... Mangá?... Leitura?... Adolescentes?... Não me credito! Naaaaaa…” perguntem aos colegas estrangeiros que vêm à Conferências do III Encontro Oeiras a Ler, dedicado à promoção da leitura para os públicos jovens e vão ver a paulada que levam.

Abraço,
   
   
           
                  

Domingo, Abril 13, 2008

            
            

    A Comunidade de Leitores da Bedeteca     

             
 
     
Ilustração de Jillian Tamaki

Está prestes a nascer a PRIMEIRA COMUNIDADE DE LEITORES DE BANDA DESENHADA EM PORTUGAL e… numa biblioteca pública. Independentemente das diferenças de opinião sobre as Comunidades de Leitores em Bibliotecas Públicas proponho “Um Brinde” à Bedeteca, à comunidade de leitores, ao Pedro Moura (dinamizador) e a Sara Figueiredo Costa. CHEERS!
   
   
           
                           
            

    Breaking News     

             
 
     
Nas Bibliotecas Municipais de Lisboa, aproximam-se as comemorações referentes ao "Mês da Profissão" e pediram-me para seleccionar, no âmbito da “Expo Profissão”, “dois livros” e “uma frase” que me tivessem marcado profissionalmente.
Depois de me ter esquecido mais de 7.365 vezes deste terrível compromisso, lá consegui fazer a selecção, tendo escolhido os seguintes livros:
TURNER, James – Rex Libris: I librarian. SLG, 2007. ISBN: 978-1593620622. Uma banda desenhada que nos conta as aventuras de um super herói bibliotecário.

BATTLES, Matthew – Library: un unquiet History. W.W. Norton, 2004. ISBN: 978-0393325645. Uma espécie de livro negro da História das Bibliotecas, protagonizada por Guerreiros Hititas, Romanos, Vândalos, Hunos, Vikings, Cruzados Cristãos, Muçulmanos, Nazis, Super Dragões e outros fundamentalistas bárbaros que não tinham grande consideração pela placa na Biblioteca que indicava «SILÊNCIO».
E, por fim, a frase que elegi como a mais marcante da minha vida profissional foi: «POR FAVOR, DEVOLVAM-ME OS LIVROS!».
Adeus, e boa sorte para o mês da profissão.
   
   
           
                           
            

    Breaking News     

             
 
     

Depois dos “Versículos Satânicos”, o “Evangelho segundo Jesus Cristo” e “Eu Carolina”, um novo tsunami editorial prepara-se para abalar as estruturas basilares da sociedade contemporânea. Referimo-nos às “REGRAS DE CATALOGAÇÃO: DESCRIÇÃO E ACESSO DE RECURSOS BIBLIOGRÁFICOS NAS BIBLIOTECAS DE LÍNGUA PORTUGUESA”, que já provocou múltiplos incidentes um pouco por todo mundo. Em Karashi um grupo de bibliotecários fundamentalistas acabou de lançar uma fatwa aos responsáveis por este livro demoníaco. Em Lhassa dois monges tibetanos, que nutrem uma paixão comum por “Pontos de Acesso Autor”, encontram-se em greve de fome. No Vaticano o Santo Padre prepara-se para excomungar os responsáveis por este atentado aos valores tradicionais da catalogação. Em Jerusalém três rabinos sefarditas, responsáveis pelo tratamento técnico na secção de periódicos na Grande Biblioteca da Sinagoga, encontram-se há mais de 48h junto ao muro das lamentações e em Pushkar o Supremo Guru S. R. Ranganathan (grão mestre de Yôga e da arte da classificação) acabou de se emular pelo fogo.
Entretanto a Polícia de Segurança Pública já assegurou que tanto o "Corpo de Intervenção" como "A Brigada Anti-Motins" estarão presentes 4ª feira dia 16 de Abril na Biblioteca Orlando Ribeiro, para o lançamento oficial do livro.
   
   
           
                  

Segunda-feira, Abril 07, 2008

            
            

    Biblioteca Municipal de O Porriño (Galiza), 29-03-2008     

             
 
     
Ilustração de Jillian Tamaki
Cidália Rivas é uma avó visivelmente incomodada. Aproxima-se do balcão de empréstimos com um livro na mão e pergunta ao técnico:
- «Acabei de retirar este libro “O compañeiro do pai” da estante dos nenos. Veixa só estes dibuxos! Dois homes na cama. Os nenos mais pequenos non deviam ver estas cousas. Como é que podo ensinar os valores morais cristáns ao meu netiño Kike com este tipo de bromas na biblioteca? Pensava que a biblioteca era uma casa ideal para as famílias?»
Ao que Dário Rubin, o técnico de biblioteca, respondeu…
- «Temos libros como “O compañeiro do pai” porque moitos profesores e pais preocupados o recomendarón. E temos mais libros sobre este tópico para as crianças. Todavia tamén temos montóns de libros que mostrán às crianças os valores tradicionais da família. Se quiser podemolos ver?»
- «E o que acontece aos nenos que vêm estes libros merdeiros? Ban a quedar-se desordenados. Este libro diz que a homossexualidad é cousa normal», retorquiu Cidalia.
- «A nossa biblioteca tem miles de usuários e temos de ter uma selección de materiales que cubram todas as necessidades e gustos de toda a xente. Existén pessoas que precisam destes libros. Se, por exemplo, um profesor tem en su clase un neno que vive en casa com dous pais ou duas nais ele pode utilizar este libro para responder aos distintos problemas. A Biblioteca non tem huma respuesta para o que é certo e o que é errado. Temos solo de ter materiais que cubrán ós gustos e as necessidades de todos, incluindo ós grupos minoritários».
- «Pues a mim non me parece que devam ter este tipo de libros. Asi as crianças nunca han de poder distinguir o certo do errado».
- «Bueno! Possiblemente podo axudá-la de moitos modos. Se quixer podo chamar o responsáble pola biblioteca (Señor Miguelanxo) para falar mellor com a senhora sobre a nossa politica de selección de materiales. Se quixer podo tamém axudá-la a buscar otros libros mais adequados a sus gustos».
- «Pero eu non quero nada». Disse Cidalia visivelmente cansada. «Por hoxe me voy»!...
   
   
           
                  

Domingo, Abril 06, 2008

            
            

    Clube de leitura “fuck the poor”!     

             
 
     

"Comunidade de Leitores": ilustração do José Carlos Fernandes

A «Time Out» de Abril tem na página 37 um artigo dedicado às Comunidades de Leitores e em especial à Comunidade de Leitores da Livraria Almedina. Para além do blá, blá, blá do costume sobre o livro e a leitura escreve às tantas que “o perfil das pessoas é muito diversificado. ESQUEÇAM OS REFORMADOS, AS DONAS DE CADSA, OS DESOCUPADOS, O CLICHÉ DO GRUPO FEMININO TUPPERWARE. Esta comunidade não é assim. Com vinte fiéis desde o início tem estudantes universitários, médicos, advogados e bancários”.

É normal que as livrarias tenham este público-alvo (estudantes universitários, médicos, advogados e bancários) nas suas comunidades de leitores? Sim, porque a sua missão é vender livros. E quem compra livros são as pessoas que lêem e, sobretudo, as pessoas que têm dinheiro.

E as bibliotecas públicas? Devem também esquecer os reformados, as donas de casa, os desocupados e o grupo feminino do tupperware? NÃO! Devem concentrar-se precisamente nestas pessoas. E porquê? Porque promover a leitura é “pôr a ler” as pessoas que não têm hábitos de leitura. Se não for assim, se os clubes de leitura das bibliotecas forem como os da Almedina, com professores e estudantes universitários, advogados, médicos e intelectuais, então não estamos a promover a leitura (não se promove a leitura em quem já lê… é estúpido e culturalmente fascista) mas a PROMOVER O AUMENTO DO FOSSO ENTRE OS QUE TÊM ACESSO AOS BENS CULTURAIS E INFORMATIVOS E OS QUE NÃO TÊM.

Parece-me que hoje acordei particularmente constipado…
Abraço fraternal do vosso Bibliotecário Robin dos Bosques
   
   
           
                  

Sábado, Abril 05, 2008

            
            

    Pena não haver em português     

             
 
     
Nove autores (Mattotti, Place, Gipi, Jouvray, Pedrosa, Kokor, Bruno, F. Peeters e Alfred) ilustram os seus testemunhos sobre a imigração e sobre a situação dos clandestinos. Errância em África, prostituição, escravatura, sobrevivência sem papéis, brutalidade policial, burocracia demencial…

Paroles sans papiers. Paris: Delcourt, 2007. ISBN: 978-2-7560-1085-4
   
   
           
                           
            

    Pensamento do dia     

             
 
     
Ilustração de Taeeun Yoo

Quando digo às pessoas que a minha profissão é “Bibliotecário” pensam imediatamente que passo os meus dias SENTADO A LER. “I wish!...”

Um abraço final ao Beco das Imagens onde exerço regularmente a actividade de carteirista de obras protegidas.
   
   
           
                  

Domingo, Fevereiro 17, 2008

            
            

    Serviço de aquisições: secção de lazer – adultos     

             
 
     

Um livro polémico (assim como o filme que faz a sua adaptação) tendo sido acusado designadamente de RACISTA e XENÓFOBO pela crítica (houve inclusivamente quem acusasse Frank Miller, o autor, de ser fascista e “neo con”) retratando os persas (actualmente seriam os iranianos) de forma bastante negativa (as tropas de elite parecem-se com os Orcs do Senhor dos Anéis) e os espartanos, representantes da civilização ocidental, de forma positiva e bela. Confesso que pessoalmente e pelo livro, nunca me aperceberia disso se não tivesse sido chamado à atenção… mas que este tipo de polémica vende livros, estimula o empréstimo domiciliário e dinamiza animados debates em comunidades de leitores é inegável.


De qualquer modo a BD agradou-me. Li como se estivesse a ler uma homérica aventura passada na antiguidade e nunca faria uma associação entre PERSAS = MUÇULMANOS (que estavam a anos luz de o serem) e GREGOS = CRISTÃOS/JUDEUS (que também não o eram). Ou seja nunca me ocorreria uma eventual metáfora ao “clash of civilizations” a partir desta banda desenhada.


“300” é [como já devem ter percebido] uma banda desenhada sobre «uma das suas acções mais importantes que se deu por ocasião da invasão da Grécia pelos persas, em 481 a.C. em que Leónidas I, rei e general de Esparta, defendendo o desfiladeiro das Termópilas com 7.000 homens (apenas 300 eram espartanos) consegue repelir os ataques iniciais dos Persas. Mas Xerxes, rei dos Persas, auxiliado por um pastor local (Efialtes) que o conduziu por um caminho que contornava o desfiladeiro, acaba por cercar o exército de Leónidas….


MILLER, Frank – 300. Lisboa: Norma, 2004. ISBN: 84-96415-99-6
   
   
           
                           
            

    Serviço de aquisições: secção de lazer – adultos     

             
 
     
É um daqueles livros que não resisti à compra mas, com sinceridade, não gostei. O livro é uma biografia. Contudo, é uma biografia de uma distinta presencia do séc. XX condensada num colorido álbum de poucas páginas. Para além do mais os diálogos apresentam-se monótonos, forçados e a narrativa contém inúmeros saltos no tempo que obrigam o leitor a conhecer a vida do “el comandante”, a priori, para entender o livro, tornando assim paradoxalmente inútil a sua leitura. Trata-se, na minha opinião de um daqueles livros que ajudam a construir preconceitos ou falsas e opiniões de que a BD é inferior à literatura ou simples à prosa escrita. Não ajuda “à causa” e francamente devia, com o mesmo dinheiro, ter comprado o livro do Gipi ou do Dave Mckean, também editados pela Vitamina BD. Devem, porém, as Bibliotecas Públicas adquirir este livro? Penso que devem! As colecções das Bibliotecas Públicas têm de ser diversificadas, revestir um carácter enciclopédico e ser isentas de censura. Devem permitir o acesso a diferentes pontos de vista, correntes de opinião, níveis diversos de abordagem e… Manifesto da Unesco… bla, bla, bla…
WOSNIAK; M. CHARLES; J.F. CHARLES - Che Guevara: libertad. Lisboa: Vitamina BD, 2008. ISBN: 978-989-8062-15-4
   
   
           
                  

Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008

            
            

    A Rede de Leitura Pública na Sildávia     

             
 
     
A Sildávia era uma pequena e esquizofrénica república que se situava nos confins orientais da Europa. Neste país, muito estranhamente, todas as bibliotecas públicas em zonas suburbanas, cidades médias, pequenas vilas e aldeias rurais estavam modernizadas, ao contrário do que sucedia com as bibliotecas de Klow, a cosmopolita capital, cujas bibliotecas eram pequenas, antiquadas e não serviam os interesses da população.
Com a excepção da capital, todas elas, cumpriam as normas internacionais para a construção, arquitectura, dimensão dos diferentes espaços (salas de leitura, salas de lazer, salas de computadores, secções infantis e de adolescentes), qualificações técnicas dos recursos humanos, estantaria, grandeza e diversidade das colecções e seu tratamento técnico… as quais se ilustram com os exemplos…

Da secção infanto juveil da Biblioteca Municipal de Szloti…


Do balcão de empréstimos da sala de atendimento geral da Biblioteca Municipal de Sczout…

Da sala de leitura da Biblioteca Municipal de Dbrnouk…

Ou dos expositores de difusão activa da Biblioteca Municipal de Szohodskaya.

Por último, em todas estas bibliotecas a percentagem da população inscrita ultrapassava os 40% ao contrário de Klow, a capital, que dos seus 122.000 habitantes, apenas de 2400 estavam inscritos na Rede Municipal de Bibliotecas… Para infinito desespero do Barão Almazout (o bibliotecário de Klow) as “suas” bibliotecas produziam menos cartões de sócio que o mal afamado clube de vídeo do infernal Januch.
   
   
           
                  

Domingo, Janeiro 27, 2008

            
            

    As Comunidades de Leitores na Antiguidade     

             
 
     
Jerusalém, há muito tempo atrás…

- Irmãos! E se formássemos uma COMUNIDADE DE LEITORES? Somos exactamente doze, Um número que me parece bastante razoável para um clube de leitura. Que achais?
- Eu continuo a ser da opinião que devíamos fundar uma RELIGIÃO, senhor?
- A mim também me parece que o Lucas tem razão. Se fundarmos uma RELIGIÃO podemos pregar o Evangelho aos judeus assim como aos gentios em toda a Galileia.
- Mas não vedes? Uma COMUNIDADE DE LEITORES É UMA RELIGIÃO. E reparai que a partilha de uma Tábua de Argila pode manter a comunidade unida. Que mais quereis?...
- Eu pessoalmente gostava de ver os pães multiplicados, senhor.
- Mas Tiago, a leitura alimenta o espírito e sustenta a fé. Já vistes que, desde que não fossemos muito exigentes e usássemos tábuas de argila com temas que não deixem as pessoas indiferentes, podíamos fazer CRESCER E MULIPLICAR AS COMUNIDADES DE LEITORES em toda a Galileia, e quem sabe, pela Grécia, Egipto e Roma e assim PROMOVER A TÁBUA DE ARGILA E OS HÁBITOS DE LEITURA EM TODA A TERRA?...
- Sim senhor! Tendes razão, mas os jovens de hoje já não ligam às Tábua de Argila. Andam seduzidos com as novas tecnologias e não largam os Rolos de Papiro. Qualquer dia ninguém lê, senhor. Uma RELIGIÃO é melhor. Tem mais seguidores.
- Também pensais assim Judas?... Reparai que há muito tempo se fala no FIM DAS TÁBUAS DE ARGILA, mas elas nunca desaparecem, nem vão desaparecer. Há coisas que são insubstituíveis. O seu cheiro, o tacto e o design proporcionam prazeres tão grandes que os rolos jamais serão capazes de oferecer, para além não cansarem a vista quando lemos.
- Mas com uma RELIGIÃO, senhor, podeis fazer MILAGRES e assim ajudar os cegos, os doentes e os pobres?
- Contemplai Lázaro, que A LEITURA TAMBÉM FAZ MILAGRES. O carpinteiro pobre, assim como o pescador ou o pastor humilde que lêem podem descobrir novas técnicas para benfeitorizar o seu ofício e assim melhorar as suas vidas. Para além de poderem ocupar os seus tempos livres com alegrias lúdicas que não imaginavam existir. Que pensais?...
- Hum… Eu não estou lá muito convencido.
- E eu também não, senhor.
- Nem eu!
- Eu pessoalmente vim a pé desde Caná, senhor. Se soubesse que era para formar um CLUBE DE LEITURA não tinha saído de casa.
- Bom! E se comêssemos pão e bebêssemos vinho durante as sessões, irmãos?
- Assim já é falar, senhor!
- E podemos também escolher as Tábuas de Argila para ler nas sessões seguintes, senhor? Eu pessoalmente gosto muito das Tábuas de Auto Ajuda.
- Sim André. Podeis escolher, mas tendes que estabelecer regras. Regras para a dinamização das sessões e para a escolha das tábuas.
- Sim senhor, boa!
E assim começou uma das primeiras comunidades de leitores da história da humanidade. Ao que parece outros profetas anteriores, designadamente Shiva, Sidharta e Moisés terão formado eles também as suas COMUNIDADES DE LEITORES COM IDÊNTICO SUCESSO.
Cartoon de Gerhard Haderer
   
   
           
                  

Terça-feira, Janeiro 22, 2008

            
            

    Estado Português ADQUIRE FAMOSA COLECÇÃO DE FADO. Passados 15 minutos CAI EM SI e OFERECE TUDO AO KAZAA (programa de partilha de ficheiros MP3)     

             
 
     

Ilustração de Pepedelrey

«Depois de nos lembrarmos que não havia pessoal técnico qualificado, condições de armazenamento, preservação, hardware para digitalização dos conteúdos, garantias técnicas de não obsolescência dos ficheiros informáticos, fonógrafos antigos de 78 rpm, ou mesmo, simples gira-discos, leitor de cassetes ou qualquer equipamento de som em todo o Ministério da Cultura (tirando, obviamente, o transístor do senhor Neves o contínuo da Secretaria Geral), fizemos a única coisa que estava ao nosso alcance para DISPONIBILIZAR ESTE VASTO PARIMÓNIO AOS PORTUGUESES que era, no fundo, DOÁ-LO DE IMEDIATO AOS ESTRANGEIROS antes que fosse tarde de mais», confidenciou ao anarquista uma Ministra da Cultura que preferiu manter o anonimato.
   
   
           
                  

Sexta-feira, Janeiro 18, 2008

            
            

    O paradoxo idiota do bibliotecário anarca     

             
 
     

Ilustração: Filipe Abranches

Na minha opinião, as Bibliotecas Públicas não têm de ter nenhum preconceito em ADOPTAR A “FILOSOFIA DAS GRANDES SUPERFÍCIES”. Não têm porque, tal como as grandes superfícies os seus serviços são para TODA A COMUNIDADE, mas ao contrário destas os seus serviços são GRATUITOS. Curiosamente, (aí está o paradoxo!) só assim podem ser de facto uma AMEAÇA (embora involuntária, porque não é essa a sua missão) AO CAPITALISMO GLOBALIZANTE. Pelo contrário se as bibliotecas públicas adoptarem a filosofia do pequeno comércio de bairro ou de pequenas livrarias como a “Ler Devagar”, não só não se apresentam como alternativa ao hipermercado, pois atingem apenas uma minoria de pessoas, como ainda por cima, entram em concorrência com o pequeno comércio cultural servindo, involuntariamente, os INTERESSES DO CAPITALISMO GLOBALIZANTE.

Pergunta:
Então o que é para si uma boa Biblioteca Pública, seu anarca de meia tigela?
- É uma FNAC GRATUITA GIGANTE, com milhões de actividades para os putos e os teenagers, com ACESSO GRATUITO A CENTENAS DE COMPUTADORES e Internet, com ARQUITECTURA DO SANTIAGO CALATRAVA, excepto no mobiliário, e com uma Gelataria Hagen Dasz ao fundo do corredor. That would make my day, punk!...
   
   
           
                           
            

    Querido diário     

             
 
     

Ilustração Joe Sorren

Ser canhoto é cruel. Ainda hoje no metropolitano voltei a colocar o bilhete na porta de saída… do lado esquerdo. A senhora que estava ao meu lado agradeceu o gesto e foi-se embora, fechando-se a porta atrás dela e deixando-me encravado (qual totó!) no interior da estação.

E o que tem isto a ver com o assunto principal deste p@squim electrónico?... Perguntam muito legitimamente os meus milhões de leitores?... Tem. É que por causa deste infeliz contratempo cheguei atrasado à Biblioteca.
   
   
           
                  

Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

            
            

    Querido diário     

             
 
     
Ilustração: Richard Câmara
Ocorreu-me finalmente um grande nome para a futura Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal Central: «Apreciamos sobretudo as bolachas».
Ou então:
«Também gostamos de Proust, mas apreciamos sobretudo as bolachas»
Que vos parece?
   
   
           
                           
            

    Grandes bibliotecas     

             
 
     
EXTRA! EXTRA! READ ALL ABOUT IT!... A magnífica e assombrosa edição de hoje do Jornal de Letras é especialmente dedicada aos 20 anos da Rede de Leitura Pública. Gloriosos artigos sobre as melhores e mais dinâmicas bibliotecas públicas nacionais. Serviços de excelência muito justamente referenciados ou dilatadamente apresentados. Felicitações a todos e um barbaric yawp ao Henrique Barreto Nunes, à Maria José Moura, à Póvoa do Varzim, Matosinhos, Espinho, Ílhavo, Seixal, Oeiras, Vila da Feira, Sobral do Monte Agraço, regiões autónomas da Madeira e dos Açores, Évora, Beja, Porto, Braga, Guimarães, Trancoso, Alfandega da Fé, Figueiró dos Vinhos, às magníficas bibliotecas do Algarve, Alentejo, Trás-os-Montes e a todos os protagonistas ou simples figurantes nestes 20 anos de «Revolução Silenciosa» (NUNES, 2008).

Abraço do anarquista que aqui fica a soltar alguns acordes tristes e desafinados

«Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim»
   
   
           
                  

Domingo, Janeiro 13, 2008

            
            

    Utilizadora, algo excessiva, tinha em sua casa mais de 1.000 documentos (livros, jogos, música e DVDs) da biblioteca pública     

             
 
     
Ilustração: Erik Bergstrom

O caso ocorreu em Akron, no Ohio. Segundo a polícia local a senhora alegou ter 34 filhos e que todos adoravam DVDs, jogos e livros, quando na verdade Tammie Ware, a prevaricadora, tem apenas 4 filhos. Dados da Biblioteca Publica de Akron revelam ainda que o valor dos materiais que a senhora levou “emprestado” ultrapassam os 15.000 dólares (montante superior ao orçamento de algumas bibliotecas públicas subsarianas como Uagadugu, Cartum, N’Djamena e Libreville) e que a multa a que está sujeita é superior a 1.000 dólares. O porta-voz da polícia local, o tenente Rick Edwards, referiu ainda que foi necessária uma carrinha “pick up” para recolher e transportar todo o material de volta para a biblioteca. Os materiais regressaram contudo em bom estado. Edwards referiu ainda que a senhora Ware conseguiu 34 cartões da biblioteca (a partir de nove moradas diferentes) em nome dos seus filhos e que dessa forma ia acumulando os materiais em casa desde 2000. Carla Davis, a bibliotecária porta-voz, disse, por seu turno, que lamentavelmente a senhora não conseguiu entender o princípio básico da “partilha de recursos” que a maioria dos utilizadores entende perfeitamente: o princípio do empréstimo e a correspondente DEVOLUÇÃO.
   
   
           
                  

Quarta-feira, Janeiro 09, 2008

            
            

    Promoção do Livro e da Leitura na cloaca     

             
 
     
O Library Link of the Day de hoje deixou-me especialmente animado. Dedicado ao lendário tema das LEITURAS NA SANITA proporcionou-me um bom começo do dia. Gostei, também, de saber que segundo Kreismer (admirável investigador do tema) a leitura na retrete teve o seu início em 1857, data cósmica que coincide com a invenção do papel higiénico. Contudo, existem provas insufismáveis que revelam a existência de bibliotecas nos banhos romanos onde os banhistas podiam ler confortavelmente os seus rolos de papiro favoritos.

Eu, pessoalmente, nunca me tinha apercebido que se podia ler na casinha…
   
   
           
                  

Domingo, Janeiro 06, 2008

            
            

    As profecias do Professor Kilomba     

             
 
     

“Estou firmemente convencido que o alcaide de Guadalajara que construir 6 bibliotecas destas, bem situadas, e mandar napalm em cima das actuais 20, tem – garantidamente – dez maiorias absolutas consecutivas e cinquenta anos seguidos de presidência”, declarou entusiasmado o Professor Kilomba ao visitar as novas instalações da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo.
   
   
           
                           
            

    Cidadãos de Lisboa ameaçam transferir-se maciçamente para o Alto Minho!     

             
 
     
Nova Biblioteca de Viana do Castelo abre as suas portas a 20 de Janeiro. Projectada por Siza Vieira, teve um orçamento de 4,5 milhões de Euros. Os seus 36.750 felizardos habitantes terão à disposição cerca de 100.000 livros, periódicos, CDs e DVDs, para cosulta local e empréstimo domiciliário, num espaço que ocupa os 3.130 metros quadrados (cumprindo e superando as recomendações da IFLA / UNESCO). O horário de funcionamento é igualmente imbatível (10h – 22h) deixando a generalidade dos “alfacinhas” boquiabertos e, muito legitimamente, à beira de um ataque de nervos.

Entretanto um cálculo ousado do contabilista anárquico revelou que cada estádio do Euro 2004 (com um custo médio de 250 milhões de euros) dava para construir 55 bibliotecas públicas destas, enquanto o Túnel do Marquês (300 milhões de euros) dava para edificar 60 bibliotecas assinadas pelo Siza. Nice! Very Nice.

Por último, em entrevista exclusiva ao anarquista, um bibliotecário anónimo deixou no ar a pergunta fatal: “AINDA HÁ VAGAS para trabalhar na vossa biblioteca?” …
Aguardamos a resposta com tranquilidade.
   
   
           
                  

Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

            
            

    A depressão de Nicolae Andrescu, o bibliotecário dos Cárpatos     

             
 
     

Ilustração de Brian Cronin

Nicolae Alexandru manifesta-se preocupado. Tem a missão de animar duas comunidades de leitores no obsoleto Sistema de Bibliotecas da Valáquia e nem sabe bem o que são comunidades de leitores. «Grupos de pessoas que se encontram deliberadamente para falar sobre um livro que estiveram a ler ao mesmo tempo? Para quê?... Afinal não é a leitura um dos maiores prazeres que se pode tirar da solidão?... Não é uma coisa íntima?... Alguém me explica esta moda?... E vamos falar sobre o quê?... Quem é que fala?... Quantos podem entrar? Come-se?... Bebe-se?... Quem escolhe os livros?... Oh não! Será que as mulheres também vão escolher livros?... Pelas barbas de Belzebu!... Estarei condenado a ler todos os livros de auto ajuda da Oprah até ao fim dos meus dias?... Não!... NÃO!.... NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOO!!!...»
   
   
           
                  

Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

            
            

    Santas leituras de Natal     

             
 
     
Boas notícias para os ateus! O livro «The God delusion» de Richard Dawkins, traduzido para português como «A desilusão de Deus», já vendeu mais de um milhão de exemplares em Inglaterra e ao nível das vendas só é batido pelo eterno Harry Potter. Parece que “o ateísmo vende”, segundo a Times Online, e os cristãos já andam um bocado deprimidos com isso.

Um bom livro, por conseguinte, para as Férias de Natal. Boas leituras e uma Santa Quadra Natalícia.

DAWKIN, R. – A desilusão de Deus. Lisboa: Casa das Letras, 2007. ISBN: 978-972-4617589.
   
   
           
                  

Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

            
            

    Clube de leitura teen     

             
 
     

É o Harry Potter da BD na Europa e nos E.U.A. De França a Espanha e Itália, dos EUA ao Canadá arrasa tudo o que é top de vendas. Jogos de vídeo, bonecos e diversos brinquedos de merchandising vendem-se também como cogumelos em seu redor. Em Portugal é um fenómeno sobretudo ligado à Internet (em que os adolescentes urbanos oriundos da classe média, fazem intensos downloads), às lojas de brinquedos e, residualmente, às livrarias especializadas em banda desenhada de importação.

Contudo num rasgo de ousadia tremenda as Bibliotecas Municipais de Lisboa preparam-se para trabalhar a leitura de super heróis e de shonen mangá com um grupo de teenagers num bairro social de Lisboa.

São seus objectivos: promover hábitos de leitura lúdica e, em simultâneo, garantir que o dinamizador não leve, digamos, “porrada”.

É sua estratégia, para cativar a presença de jovens leitores, melhorar as notas nas aulas de inglês e português.

Interessa ao dinamizador deste grupo: verificar se a BD de super heróis e mangá (geralmente vista como médium destinado a rapazes brancos da classe média urbana) podem interessar a filhos e netos de emigrantes dos países africanos (no Bairro Padre Cruz, Biblioteca Municipal Natália Correia).

Estamos firmemente convencido que com esta iniciativa o bibliotecário anarquista poderá finalmente receber o prémio “Library Services for Poor People – Asshole Award of the Year”.

A leitura e o visionamento de DVDs do Naruto (em inglês) estarão seguramente presentes desde as primeiras sessões.

KISHIMOTO, Masashi – Naruto, 1. [S.l.]: Viz Media, 2003. ISBN: 978-156931900

Um feliz solistício pagão, cheio de bolo rei e de deliciosas rabanadas, nham, nham…
   
   
           
                           
            

    Pena não haver em português     

             
 
     
Um excelente livro. Uma banda desenhada de intenso calibre político e humanitário. Tão boa que seria impensável publicá-la em Portugal. Uma sólida narrativa gráfica dedicada aos aspectos mais negativos da globalização liberal, com magníficas abordagens históricas sobre a conquista europeia da América latina e o branqueamento dos genocídios perpetrados pelos conquistadores ao longo dos séculos. Comparações geniais com uma eventual vitória Nazi na 2ª Guerra Mundial que conduziria também ao branqueamento, democratização e humanização do Holocausto e que serviria inclusive para fazer belos postais sobre o modo de produção do sabonete em Aushwitz – tal como a conquista da América serve para fazer belos postais sobre a fabricação do chocolate. Um autor, Philippe Squarzoni, a não perder de vista e que pode ser o Noam Chomsky da livraria de BD mais perto de si.

SQUARZONI, Philipe – Garduno, en temps de paix. Albi: Requins Marteux, 2002. ISBN: 2-909590-75-5
   
   
           
                           
            

    Serviço de aquisições     

             
 
     
Uma leitura cativante. Começamos a ler e só paramos no fim. A sorte é que tratando-se de uma BD ao fim de uma hora a leitura está consumada. Eis o primeiro álbum ao estilo francês (capa dura e grande formato) de Rui Lacas que nos conta a história de uma senhora idosa e solitária, provavelmente nos anos 70/80 lá para os lados da Zambujeira do Mar, que todos os dias pede ao “seu patrão”uma moeda em nome da sua defunta filha. Um dia uma menina pergunta à senhora quem é a sua filha e a narrativa faz um “flash back” ao passado para contar a história da filha, Anita, uma adolescente bonita e inteligente que vive com a sua mãe no campo. O pai faleceu e as duas vivem na propriedade do “patrão” por especial favor. Até ao dia em que o “Patrão” diz que está na hora da Anita começar a trabalhar e deixar a escola… Aqui entramos na parte mais intensa da narrativa que culmina com uma surpreendente vendetta poética digna de Hollywood.

Apesar de tudo parece-nos que este ano não foi assim tão mau para a edição de BD portuguesa.

LACAS, Rui – Obrigada Patrão. Porto: Asa, 2007. ISBN: 978-972-41-5309-4

   
   
           
                           
            

    Breaking news: «Blind monk named George IFLA annual award»     

             
 
     
IFLA / UNESCO cria prémio anual denominado “Monge Cego Chamado Jorge” a atribuir ao melhor bibliotecário que consiga desenvolver vasto trabalho na área dos sistemas complexos que regulamentam o acesso à leitura promovendo, desse modo, a NÃO LEITURA. «O nosso modelo é o daquela grandiosa biblioteca medieval situada numa abadia no norte de Itália, que não nos conseguimos lembrar do nome, coordenada pelo venerável monge chamado Jorge. Uma biblioteca com muitos documentos e poucos utilizadores. Pelo menos poucos utilizadores vivos», declarou demencialmente uma pessoa muito importante da IFLA ao nosso blogue.

Entretanto em Lisboa, o bibliotecário anarquista manifestou-se muito animado com a instituição deste novo galardão ao qual pretende candidatar-se de imediato. “Já que com o Prémio Raul Proença não me safo, aqui sempre tenho alguma hipotesesinha”, disse o pseudo-anarca, com elevada dose optimismo e... marijuana, a este inqualificável blogue.